Ex Iaponia...

Um comentário sobre os Imigrantes

De acordo com a Organização Internacional de Migração (IOM), 3% da população mundial (ou seja, 1 em cada 33 pessoas no mundo) vive em um país distinto do que nasceu. Assim, caso todos os imigrantes do mundo se reunissem para formar um só país, este seria o quinto país mais populoso do mundo. No entanto, é preciso ter em consideração que o conceito de “imigrante” usado aqui é amplo o suficiente para abranger desde aquelas pessoas que se mudam por problemas políticos (refugiados), econômicos, ou até pessoas que se mudam por motivos familiares (o que em japonês se costuma chamar de “casamentos internacionais”). Além disso, há movimentos migratórios em massa e migrações individuais, o que torna o conceito de “migrante” ou “imigrante” uma palavra bastante difícil de ser definida. Mas o que sim está claro é que diversos países hoje em dia enfrentam o problema da imigração. Neste post vou contar algumas coisas de uma conversa que tive com um amigo em Tokyo, no outro dia. 

Antes de mais nada, não é novidade que o fenômeno migratório é uma coisa bastante antiga (desde o período dos neandertais!), mas muitos pesquisadores costumam definir como um dos grandes divisores de águas a descoberta da América, que permitiu um fluxo migratório constante de um número bastante elevado de pessoas cruzando grandes distâncias. Por exemplo, no início do século XIX a Europa tinha uma população estimada em 190 milhões de pessoas. Num período de 100 anos, mais de 40 milhões deixaram a Europa para ir a outros continentes, principalmente à América, mas também às suas colônias na África, Ásia e Oceania. 

Mas para “materializar” um pouco mais estes números vamos ver o caso de 3 países que foram grandes “exportadores” de gente nos últimos 2 séculos.

1) Alemanha

Estima-se que a chamada “diáspora germânica” tenha dado luz a mais de 100 milhões de descendentes (fora da Alemanha). Por exemplo, 17% dos Norte-americanos e 7,5% dos Argentinos são descendentes de Alemães, e no caso do Brasil, 3% são 100% Alemães e ao menos 7% tem sangue germânico (o que faz com que 10% da população Brasileira tenha algo de germânico em seu sangue).

2) Itália

No caso da Itália, calcula-se que entre o período relativamente curto que vai entre 1870 e 1920, 1 milhão de Italianos tenha deixado seu país para emigrar principalmente à América Latina (note-se que aqui o número se refere aos Italianos somente, e não aos descendentes de Italianos em geral). Atualmente 6% dos Americanos, 45% dos Argentinos e 20% dos Brasileiros tem algo de Italiano no seu sangue.

3)Japão

O número de Japoneses e seus descendentes (chamados nikkei) fora do Japão é estimado em 2,6 milhões, dos quais quase a metade vive no Brasil. Se pensarmos que com o fim da Segunda Guerra em 1945 mais de 6 milhões de Japoneses que viviam fora do arquipélago Japonês (seja nas antigas colônias Japonesas da Ásia ou em países do continente americano) voltaram ao Japão, pode-se imaginar a quantidade de Japoneses que deixaram o país na primeira metade do século XX.

E continuando um pouco mais o tema dos Japoneses, há um documento muito interessante sobre este tema. Em 1924, o Governo Japonês organizou uma reunião com os distintos representantes de cada Ministério e personagens-chave da economia japonesa, para definir os rumos que o país deveria tomar para reestabelecer a economia nacional após o fim da Primeira Guerra. Em concreto, um dos temas tratados foi o da superpopulação.

É urgente solucionar o problema populacional. Parece ser que uma solução adequada seria a da Emigração, já que o nosso país tem um crescimento anual de 600, 700 ou até 800 mil pessoas por ano. (…) E parece ser inviável mandar todo esse excedente populacional às colônias [que o Japão então possuía]. (…) Desta forma, após um estudo detalhado no exterior, o Brasil parace ser o destino mais adequado, já que todos os demais países/regiões oferecem algum tipo de problema. Ou seja, resolvendo alguns poucos problemas que oferece o Brasil, parece-nos que fomentar a emigração ao Brasil é a melhor solução que temos” (Atas do Congresso Econômico do Império, 26-V-1924) 

É interessante notar, que a partir deste mesmo ano (1924) o Japão organiza políticas sistemáticas para mandar gente ao exterior, ou seja, já não são iniciativas de empresas privadas de emigração, mas o próprio Governo Japonês que incentiva esse movimento (em concreto através de ajuda econômica). 

A escolha dos 3 países supra citados foi intencional, já que atualmente nestes 3 países há uma séria discussão sobre os prós e contras das políticas emigratórias (ou seja para receber ou não emigrantes). Na Alemanha são os turcos, na Itália os imigrantes do norte da África, e no Japão são os imigrantes do Leste e Sudeste Asiático, e sul-americanos, que na prática já estão dentro das fronteiras destes países, mas que têm gerado inúmeros problemas de adaptação nas sociedades locais. Por um lado estão os que dizem que com o envelhecimento da população “nativa” e a diminuição brusca da taxa de natalidade, a imigração é a única maneira de manter a economia do país em funcionamento; e por outro estão os que são totalmente contra a entrada de estrangeiros (bom, há um terceiro grupo, minoritário por certo, que são os que são totalmente a favor das políticas imigratórias). De qualquer forma, o que me chama a atenção é que todos estes países que hoje discutem sobre a validez ou não das políticas imigratórias são os mesmos que outrora mandaram emigrantes a toneladas ao exterior, e que por isso, estavam no lado que “dependia” dos demais países.  

Uma grande exceção talvez seja os EUA, que nunca teve uma política sistemática para mandar gente para fora do país, e que no entanto hoje é o país receptor de imigrantes por antonomasia. Mas no caso dos EUA (como o Brasil), se não fosse o fenômeno migratório, jamais seria o país que é hoje. 

E quando falava com esse amigo em Tokyo, comentei sobre o caso do Brasil. Há alguns anos a televisão japonesa NHK transmitiu um programa sobre a imigração (ou emigração) japonesa ao Brasil, o que é bastante raro na TV japonesa. Este programa -muito bom, por sinal- falava sobre Ryo Mizuno, conhecido como o pai da Emigração Japonesa. O seu “ideal de política emigratória” era o subtítulo do programa: “Os imigrantes devem ser kyozon-kyoei” (é difícil traduzir ao português, mas é algo assim como “conviver para co-prosperar”, ou seja, que as políticas emigratórias devem pensar não só na solução dos problemas do país exportador, mas também em como viverão os imigrantes na nova terra, para que possam não só conviver no sentido físico, mas tornar esta relação próspera e frutífera para ambas partes. Que conste que Mizuno era o presidente de uma empresa privada de emigração, responsável pela primeira leva de japoneses que chegou ao Brasil em 1908, ou seja, não era do Governo.

Algumas das medidas tomadas neste sentido -em algumas regiões de SP e PR- foram a construção de escolas no interior do Estado de SP para filhos de imigrantes japoneses, formação de cooperativas agrícolas, organização de comunidades, loteamento de novas terras etc, tudo para garantir que os imigrantes se adaptassem o máximo possível à nova vida e evitar algo semelhante ao que hoje conhecemos como “fenômeno dekasegi no Japão”, onde muitas vezes a educação dos filhos e a unidade familiar acabam ficando desbalanceadas, já que as fábricas e empreiteiras não tem outras metas que o lucro bestial.

E é justamente nesse campo que acho que o governo japonês deveria atuar mais, já que em parte o problema atual foi gerado pelas políticas emigratórias em massa que eles mesmos fizeram há 50, 60 ou 70 anos. Não digo que os países tem a obrigação de receber imigrantes, pois cada caso tem que ser tratado individualmente e com toda a prudência que o caso exige, mas o que sim tenho certeza é que países que pensam que a emigração/imigração são instrumentos usados como solução a curto prazo para problemas internos são o pior tipo de egoísmo e falta de sentido social que poderia existir. Os imigrantes, que poderiam contribuir tanto para o desenvolvimento da sociedade local, como aconteceu no Brasil, acabam sendo como a ponta do pão de fôrma, que ninguém gosta, mas que só comemos para não levar bronca da mãe porque é desperdício jogar fora: o que poderia ser fonte de energia e vida acaba sendo engolido, aturado e mais nada… 〓

O aborto no Japão
 
Um overview do aborto no Japão
Recentemente tenho pensado um pouco sobre o tema do aborto. Não tenho acompanhado muito como anda a situação no Brasil, mas lembro que -talvez pelo fato de ser um tema “polêmico”- sempre saía nos jornais, de uma maneira ou de outra… mas saía. Aqui no Japão esse é um tema sobre o qual nunca li nos jornais, mas é como a velha história do Rei Nu: todos sabem que acontece, mas ninguém comenta, em parte talvez porque seja um tabu, em parte talvez pelo medo de ir contra a corrente
 
 Digo que pensei nesse tema recentemente porque ouvi algumas histórias sobre o aborto no Japão, e pesquisei um pouquinho mais para conhecer a situação. Não se sabe ao certo desde quando nem com que frequência se praticava o aborto no Japão, mas sabe-se que acontece desde muitos séculos atrás. Há alguns séculos os métodos de aborto eram os mais primitivos que se possa imaginar: chutar a barriga da mãe, expôr a grávida ao frio intenso e outros métodos que não quero descrever. Já bem adentrado o século XX, em concreto na década de 1940, uma médica parteira que se dizia preocupada com a situação das famílias pobres que não tinham condições de cuidar dos bebês chegou a matar mais de uma centena de recém-nascidos, tudo isso -é lógico!- pensando no bem-estar das famílias. Anos mais tarde quando o caso veio à tona, ficou claro que ela fazia isso para extorquir dinheiro das mães, já que poupando elas de terem um filho a mais faria elas economizarem muito mais dinheiro do que a propina que a parteira pedia.
 
Tradicionalmente, esse caso (e outros similares) é tido como um dos motivos que levaram o governo japonês a legalizar o aborto. Quero dizer, ainda hoje, segundo o artigo 29 do Código Penal, o aborto é crime e dá cadeia, mas isso na teoria. Logo após o fim da II Guerra, foi promulgada a Lei de Proteção Eugênica (pois é, é esse o nome… daí já se pode imaginar quais eram as causas de aborto…), que foi modificada para Lei de Proteção Materna em 1996. Não sei se é coincidência ou não (e não estou sendo sarcástico), mas é preciso lembrar que justo na época da promulgação da lei eugênica, de 1945 a 1952 o Japão estava dominado pelas Forças Aliadas (leia-se EUA). De qualquer forma, hoje em dia o aborto continua sendo crime… com uma exceção: os casos em que a saúde da mãe corre perigo, e desde que seja praticado por médicos licenciados e com a autorização da mãe (e do pai, caso sejam casados). Usei a palavra exceção, mas na prática, qualquer mãe pode abortar, mesmo que não corra perigo de vida nem nada: basta usar a justificativa de que “o parto (e a criança) podem prejudicar a saúde mental ou psíquica da mãe”. Com isso, qualquer caso é justificável, e isso é o que justifica os mais de 250 mil (a 300 mil) abortos anuais.
 Não vou me alongar mais, mas qualquer pessoa que conheça o mínimo sobre o Japão pode dizer que é impossível que 250 mil mães tenham problemas
sérios de gravidez por ano, num país onde o sistema de saúde está tão desenvolvido e estável, como o Japão. Aqui a taxa de mortalidade infantil é de menos de 3 para cada 1000 nascidos, enquanto que no Brasil é de mais de 23. Outro dado interesante é o de que de 2005 a 2010 a população do Japão diminuiu em 370 mil pessoas. Esse problema da queda da taxa de natalidade, que tanto preocupa o Japão, praticamente ficaria zerado se os abortos (de 250 a 300 mil/ano) e os suicídios (mais de 30 mil/ano) não fossem praticados. Mas os suicídios são tema para outro post.
 
 
Reações contra o aborto
Mas contei tudo isso por dois motivos. O primeiro é que mesmo sendo legalizado em parte, e mesmo havendo um número absurdamente alto, o número absoluto de abortos no Japão continua sendo mais baixo que no Brasil. Os números no Brasil não são claros, porque é impossível contar os abortos clandestinos, mas lembro de ter ouvido a cifra de 1 milhão/ano!! É verdade que a população brasileira (190 milhões) é maior que a japonesa (130 milhões), mas proporcionalmente a quantidade de abortos no Brasil ainda continua sendo absurdamente alta. O segundo motivo é falar sobre 3 costumes japoneses gerados pela cultura do aborto, por tudo o que acontece com a mãe no pós-aborto.
Primeiro. No Japão há muitos templos dedicados aos “mizuko” (vide foto abaixo). Mizuko significa literalmente “crianças da água”, mas uma das explicações para a origem etmológica dessa palavra é que usando outros ideogramas mas mantendo a mesma leitura, essa palavra pode significar “crianças não-vistas” (porque não chegaram a nascer). Muitas mulheres que praticaram abortos vão a esses templos para rezar pelas almas dos filhos abortados, como uma maneira de pedir perdão e reparar o mal que fizeram.
 

Há também um outro costume muito interessante, que são os “kokeshi”, e que na verdade foi o que me fez começar a pesquisar sobre o aborto. Kokeshi são bonecos de madeira, em geral compostos de um cilindro com uma bola no topo; o cabelo, cara e roupa são pintados sobre a madeira (vide foto abaixo). É um objeto de decoração bastante difundido e muito utlizado como souvenir. Mas a origem desse boneco chega a ser um pouco mórbida: o nome (atualmente escrito com outros ideogramas) significa literalmente “crianças que foram apagadas”. Parece ser que originalmente era usado por famílias que tinham tido um aborto (natural ou induzido), e colocava-se na casa um boneco desses para representar a criança não-nascida e tentar assim reparar o erro (no caso dos abortos naturais, as mães pediam perdão por não terem conseguido criar o feto de maneira adequada; e no caso dos abortos induzidos pediam perdão pelo ato do aborto em si).

  
Um terceiro detalhe interessante eu já comentei no Facebook comentando uma foto. Há uma música infantil japonesa muito conhecida, chamada “Shabon-dama” (Bolas de Sabão. Aliás, o nome em japonês para sabão em bola de sabão vem do português). A letra diz mais ou menos o seguinte:
 
“A bolha de sabão voou, voou até o telhado.
    Voou até o telhado, explodiu e sumiu.
A bolha de sabão sumiu, sumiu sem voar.
    Desapareceu logo depois de nascer, explodiu e  sumiu.
Oh vento, não sopre mais,
    deixe as bolhas de sabão voarem.”
 

 

Achei muito interessantes esses 3 detalhes, em parte nascidos por causa da cultura do aborto. Acho interessantes porque mostram que pessoas de distintas culturas, visões de mundo e religiões concordam com a brutalidade desse ato. E mesmo nos casos em que a legislação defenda a “interrupção da gravidez”, tanto as estatísticas como o comportamento das pessoas que cometeram o aborto mostram que nenhuma lei positiva pode abortar do coração humano essa lei mais profunda a favor da vida e essa sensibilidade a tudo o que é nobre e humano, inscritas no coração do homem.   〓

Post inaugural: a vida pós-tsunami

 

Na semana passada comemorei 25 anos, e exatos 5 anos e meio de Japão. E por isso decidi começar este novo blog no Tumblr, desta vez em português. Além de poder praticar o português (que já escrevo com certa dificuldade, principalmente depois das novas regras gramaticais…rs), decidi começar a escrever algo porque são muitas as pessoas que me escrevem pedindo notícias, e eu sinto muito não poder responder a todas de uma maneira adequada, ou como gostaria. Por isso comecei este blog em português. Não se trata de um diario: são idéias soltas, coisas que penso, vejo, ouço… enfim, aprendo neste país que já admirava antes de vir, mas que nunca pensei que chegaria a gostar tanto. E isso mesmo tendo conhecido aqui coisas não tão positivas que às vezes me decepcionaram ou me fizeram lembrar com nostalgia dos meus tempos de Brasil; mas é como S. Josemaría dizia: não se pode dizer que um marido ama sua esposa se não a ama com os seus defeitos (quero dizer, não se ama os defeitos, se tenta corrigi-los, mas ambas as coisas são compatíveis, porque são justamente as sombras as responsáveis por ressaltar o lado claro e colorido de um quadro).

 E o inauguro justo no dia 11 de outubro: exatamente 7 meses depois do Grande Terremoto do Leste do Japão (como é conhecido por aqui) ou do 3.11 (como é abreviado), porque foi talvez o acontecimento que mais me impressionou desde que cheguei a estas terras. Apenas para dar uma idéia da escala do desastre, o terremoto foi de magnitude 9, que dizem ocorrer com uma frequência de 1000 anos. Somando os mortos e desaparecidos já são mais de 20 mil…

 

 Dizia que as sombras fazem ressaltar o lado claro de um quadro, e isso é o que notei nos últimos 7 meses: o mal físico incomensurável do terremoto/tsunami deixou à vista um Japão que começava a desaparecer. Lembra aquele animê “A viagem de Chihiro”. Uma das grandes mensagens daquele animê -que parece louco e totalmente non-sense à primeira vista- aparece na cena em que a Sen (Chihiro) ajuda um cliente (é um deus) imundo a tomar banho. Depois de muito esforço, ela consegue abrir a torneira e dar um banho nele, e nesse momento encontra um espinho no corpo dele; ela o puxa, e descobre que o espinho era (se não me engano…) um guidão de uma bicicleta, e junto com a bicicleta começam a sair toneladas de entulho, lixo e lama, que estavam impregnados no seu corpo. No final das contas, o que resta é uma espécie de espírito sorridente (=deus) e varias moedas de ouro. Esse animê é na verdade uma crítica à sociedade japonesa moderna: em um futuro post comento mais, mas nessa cena em concreto, a crítica mira o consumismo bestial da sociedade japonesa do pós-guerra (representado aqui pelo lixo), que ao longo das últimas décadas formou como uma carapaça de lama (=materialismo) na sociedade japonesa, e escondeu o que ela tinha de realmente bom e o que realmente vale a pena (nesse caso representado pelo espírito e pelas moedas de ouro).

 E isso é o que aconteceu desde o último dia 11 de Março: todo o dano causado pelo tsunami e a maneira como em poucos minutos cidades inteiras foram engolidas pelas ondas fez com que as pessoas se dessem conta da fulgacidade das coisas materiais, ou da instabilidade de edificar as suas vidas sobre elas.

Todos os bens foram devastados em poucos minutos, e em troca as únicas coisas que restaram foi a sensação de ter sido escolhido a dedo para sobreviver e o apoio humano mútuo (que os bens materiais não foram capazes de dar) no pós-tsunami. É verdade que milhares de pessoas tiveram suas vidas ceifadas, mas como dizia uma entrevista que vi ontem na TV com um senhor que perdeu a esposa e o filho: mais que nunca ele sente vontade de viver uma vida de verdade, não só por ele, mas por todos aqueles que queriam mas já não podem.

 E -como com a Chihiro- as moedas de ouro que apareceram depois do tsunami, foram os valores e virtudes humanas de muitos japoneses. Deixo claro que não concordo com a visão deificante que meios de comunicação do exterior fazem dos japoneses, nem com certas comparações que circulam pela internet entre Japão e Haiti: no primeiro, pessoas ordenadas esperando em fila para receber alimentos, e no segundo, pessoas lutando para receber um pedaço de pão. Comparações deste tipo são detestáveis e racistas, porque não levam em consideração as circunstâncias de cada país. Por exemplo, no Japão todos sabem que se esperam na fila, com certeza irão ganhar um pacote de arroz, enquanto que em outros países, esperar na fila não necessariamente significa que chegará a sua vez…

Mas, sim, o clima de cooperação e solidariedade em todo o país impressiona. Durante o verão húmido e quente, professores e até alunos diminuíam a potência ou até apagavam o ar-condicionado -mesmo nos dias em que a temperatura passava os 30º e a sala de aula estava lotada-, para economizar a energia que os de Tohoku não podiam disfrutar; uma infinidade de grupos de estudantes, ONGs e etc, pediam doações de dinheiro, roupas, comida nas ruas, organizavam atividades beneficientes etc.

Posso comentar em futuros posts sobre milhares de coisas que me impressionaram no pós-tsunami, e sobre a experiência incrível de poder ter estado ali trabalhando como voluntario durante uma semana, mas hoje termino por aqui. Rezo hoje de maneira especial pelas almas de tantos falecidos e pela recuperação material e espiritual das áreas afetadas, e mesmo sem entender totalmente acredito que, sim, “há males que vem para bem”.

É como aquela anedota que ouvi há vários anos: quando o mestre aponta para a Lua, o discípulo tonto olha para o dedo, e o discípulo sábio olha para a Lua. O dedo neste caso é o tsunami e a destruição que ele causou; agora, continuar olhando para o dedo ou contemplar a Lua é algo que compete a cada um…〓